Psico Para todos

A cultura da imediatez

Até que ponto estás presente para saber quem és hoje?

A cultura da imediatez Natali Tucci

Alguma vez paraste para te perguntar por que razão, nos últimos anos, tudo parece ir depressa demais? Tão rápido que não consegues registar o que te acontece, nem sequer como te sentes enquanto te acontece. Como se a vida não fosse vivida, mas se deslocasse à tua frente numa passadeira rolante impossível de travar.

Vivemos com a sensação de que estamos sempre a chegar atrasados. Atrasados para uma meta, atrasados para uma experiência, atrasados para uma versão ideal de nós próprios. Há dois dias fizeste algo importante e hoje mal te lembras. Ontem estavas angustiada e hoje já estás a consumir outra série, outro vídeo, outra conversa que parece tapar momentaneamente o que veio antes. Tudo se torna repetitivo, imediato e, acima de tudo, efémero. Quando foi a última vez que processaste algo antes de acontecer a coisa seguinte?

Em conversas com os meus pares da Geração Z, surge algo chamativo e transversal: para além das diferenças ideológicas, económicas ou culturais, há uma sensação partilhada de urgência. O desejo de “concluir tudo já”. De chegar aos 30 tendo viajado, amado, empreendido, fracassado, ganho dinheiro, construído um corpo hegemónico, curado feridas, lido livros, aprendido línguas e, se possível, monetizado a própria identidade. Não queremos apenas viver as nossas experiências: queremos viver também as que vimos os outros viverem.

De onde vem esta pressa? Por que sentimos que o tempo acaba antes de ter começado? Que "ideal" se esconde por trás desta corrida contra o relógio?

Psicologicamente, poderíamos pensar que não se trata apenas de ambição, mas de angústia. Angústia perante a finitude, perante a incerteza, perante a falta de garantias. Se o mundo é instável, se o futuro é incerto, então a resposta parece ser intensificar o presente. Espremê-lo. Consumi-lo. Capitalizá-lo. Mas, nessa lógica, o presente deixa de ser experiência e converte-se em rendimento.

Comportamo-nos como se a juventude fosse o único território legítimo da vida. Como se depois dos 30 começasse uma espécie de declínio simbólico. O que imaginamos que acontece depois? Temos projetos que se sustentem para além do reconhecimento imediato? Ou a nossa fantasia vital termina quando deixamos de ser “jovens” em termos sociais?

Talvez não estejamos a desejar demasiado, talvez estejamos apenas a desejar ser vistos. Ser reconhecidos. Ser validados. O desejo próprio parece entrelaçar-se com o desejo do outro até se tornar indistinguível. Quero isto porque o quero ou porque quero que o vejam? Anseio por esta experiência ou anseio pela imagem de mim a vivê-la?

As redes sociais intensificam esta dinâmica. Funcionam como cenários permanentes onde a identidade é exibida e avaliada em tempo real. A vida não é apenas vivida: é produzida, editada e publicada. E, nesse processo, o reconhecimento torna-se uma necessidade quase fisiológica. Não se trata apenas de narcisismo, trata-se de pertença. De medo de ficar de fora. De receio de não existir se não formos observados.

Mas que custo psíquico tem esta "hiper-exposição" constante? Quando tudo tem de ser mostrado, que lugar sobra para o íntimo? Quando tudo tem de ser alcançado depressa, que espaço há para o processo? Quando tudo se mede em resultados visíveis, como se toleram os tempos lentos, os fracassos invisíveis, as dúvidas silenciosas?

A falta de presença não é apenas distração, é desconexão emocional. Não registamos o que sentimos porque o substituímos imediatamente por estímulos novos. Custa-nos sustentar o vazio, o tédio, a incerteza. No entanto, é precisamente nesses espaços que se gera o desejo autêntico. O desejo que não responde à comparação, mas à própria história.

Talvez o convite não seja para renunciar à ambição, mas para a interrogar. Que parte do meu projeto de vida nasce de mim e que parte nasce do algoritmo ou de outras pessoas? De que ritmo preciso realmente? Estou a viver ou estou a cumprir uma lista implícita de expectativas geracionais?

Ouvirmo-nos torna-se um ato quase contracultural. Parar para nos perguntarmos como estamos, o que nos dói, o que nos entusiasma, sem necessidade de o publicar. Contemplar os nossos próprios tempos como um gesto de respeito para connosco. Porque a subjetividade não se constrói na velocidade, mas na elaboração.

E também implica começar a olhar para o outro de outro modo. Não como competidor, não como parâmetro de comparação, não como espelho narcisista que confirma ou ameaça o nosso valor. Mas como alguém real, com medos e contradições semelhantes (ou não) aos nossos. Ouvir verdadeiramente o outro é sair (ainda que por um momento) do centro absoluto da nossa própria imagem.

Não se trata de ceder poder nem de esbater a singularidade, que costuma confundir-se com individualidade. Trata-se de construir vínculos onde o crescimento não seja solitário. Porque a corrida rumo ao “topo” pode ser profundamente solitária. E talvez o problema não seja não ter chegado ainda, mas ter subido sozinho.

Talvez o verdadeiro desafio não seja fazer tudo antes dos 30, mas aprender a habitar cada etapa sem a converter num trâmite. Perguntarmo-nos não o quanto alcançámos, mas o quanto sentimos. Não o quanto mostrámos, mas o quanto compreendemos. Não o quão depressa avançámos, mas se esse caminho realmente nos pertence.

E se a vida não fosse uma meta a atingir, mas um processo para tolerar, construir e partilhar?

E se desacelerar não fosse fracassar, mas começar a estar finalmente presente?

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